Põe no rótulo!

Liloripédia

O rótulo nutricional é muito mais que uma declaração de porção, calorias e principais nutrientes como diz a definição da Anvisa. Ele é uma informação fundamental num alimento, um elo de comunicação entre o produto e o consumidor e, portanto, deve ser claro, compreensível e verdadeiro. Acontece que nem sempre é assim que funciona. Muitos rótulos são confusos, omissos e indecifráveis. E se já é difícil para a população em geral imaginem para uma minoria que possui alergias alimentares e que precisam identificar se podem ou não consumir um determinado produto. No Brasil, 8% das crianças e 3% dos adultos se encaixam nesse grupo e para esse público o rótulo é determinante à saúde e à segurança. Em muitos casos, um bom rótulo é vital. Então por favor, vamos por no rótulo?

No dia 24 de junho de 2015, mediante a resolução RDC n°26, a ANVISA tornou obrigatória a rotulagem dos principais alimentos que causam alergias alimentares. A cadeia industrial terá um ano, a partir da data de publicação da resolução, 02 de julho, para rastrear toda sua cadeia produtiva em relação à presença integra ou de traços de 17 alimentos e látex natural. A resolução se aplica aos alimentos, ingredientes, aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia embalados na ausência dos consumidores, inclusive aqueles destinados exclusivamente a produção industrial e os destinados aos serviços de alimentação.  Uma conquista e tanto que nasceu da luta de um grupo de famílias de filhos alérgicos, que unidas pela campanha “Põe no rótulo” começaram a conscientizar e mobilizar a sociedade e Anvisa sobre a importância de rótulos mais transparentes.

Caseinato de potássio, lactulona, lactoalbumina são substâncias explicitamente provenientes do leite? Lipovitelina, fosfovitina, plasma são termos que lembram ovo? Difícil né? Imaginem alguém ter que ir ao supermercado com uma lista de termos técnicos e científicos que não podem conter naquelas listas de ingredientes quilométricas dos produtos industrializados. Muito mais fácil o rótulo simplesmente dizer CONTÉM LEITE OU DERIVADOS, CONTÉM OVO OU DERIVADOS. Demonstra atenção e clareza ao consumidor e mais importante, promove um consumo sem preocupações e previne o consumo de um produto inadequado que poderia desencadear repostas alérgicas de diversos níveis, sejam elas imediatas ou não, agudas ou crônicas, a exemplo a anafilaxia, que se não tratada imediatamente pode ser fatal. Não é frescura, alergia alimentar é coisa séria.

Mas o problema não para por ai. Além da difícil tarefa de traduzir e vasculhar os rótulos,  atualmente é extremamente recomendado ligar no SAC das empresas para esclarecer todas as dúvidas, principalmente sobre a presença de traços, mínimas partículas do alergeno que podem entrar em contato com um alimento aparentemente seguro em alguma etapa da cadeia produtiva (processamento, embalagem, transporte, entre outros). E aí temos um segundo impasse: o despreparo, a falta de atenção e a demora na resposta da maioria dos SAC das indústrias alimentícias. Despreparo: normalmente passamos por 10 pessoas diferentes, explicamos repetitivamente, até uma pessoa conseguir entender do que estamos falando. Falta de atenção: quando finalmente conseguimos alguém técnico ou capacitado a responder somos solicitados a enviar um email explicando novamente o caso para assim eles encaminharem para o setor responsável. Demora na resposta: as respostas normalmente demoram semanas, meses, normalmente depois de mandarmos milhões de email reforçando nosso pedido. E depois de toda essa luta, algumas vezes temos sucesso e descobrimos uma nova marca ou produto seguro, mas muitas vezes a resposta é algo como, não podemos garantir que nossos produtos ou matérias primas não contém traços, ou estamos adequando nossa cadeia produtiva. A verdade é que se toda cadeia se adequar diminuímos a propagação de respostas inconclusivas. É uma batalha de erros e acertos e devemos ter muita perseverança!

 

A pergunta que fica no ar é: como será a partir de julho de 2016? Esperamos sinceramente que durante esses 12 meses de prazo para as mudanças e adequações, algo realmente aconteça! Algo para melhor como: rótulos legíveis, informações claras e fidedignas, SACs mais capacitados e interessados em ajudar o consumidor. A nova norma é uma garantia à informação, é um direito do consumidor e mais que isso é um exercício de cidadania. Rótulos não são apenas lista de ingredientes, eles são detalhes indispensáveis para a vida de muita gente e é dever da indústria zelar pela saúde e bem estar dos consumidores, para que estes então possam fazer escolhas seguras e conscientes. A Lilóri apoia a campanha põe no rótulo e aguarda ansiosamente pelas mudanças :)

#poenorotulo

 

Natassia Sacco – Nutricionista estagiária Lilóri
Graduanda do curso de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública – USP

 

Referências:

 

Brasil. Anvisa. Agência Nacional de Vigilância Sanitária; UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – UnB. Rotulagem Nutricional Obrigatória: Manual de Orientação às Indústrias de Alimentos. 2. versão. Brasília: ANVISA, UnB, 2005. 44 p.

Brasil. Anvisa. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n° 26, de 2 de julho de 2015. Dispõe sobre os requisitos para-rotulagem obrigatória dos principais alimentos que causam alergias alimentares.

 

Brasil. Ministério da Justiça. Código de Defesa do Consumidor (CDC). Lei nº 8.078/90, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 12 set. 1990. Seção 1. Disponível em: . Acesso em ago. 2011.

Brasil. Ministério da Saúde. Rotulagem geral de alimentos embalados. Resolução RDC nº 359, de 23 de dezembro de 2003. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 26 dez. 2003a. Seção 1. Disponível em: . Acesso em: ago. 2011

Brasil. Anvisa. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n° 26, de 2 de julho de 2015. Dispõe sobre os requisitos para-rotulagem obrigatória dos principais alimentos que causam alergias alimentares.

 

Cavada, G.S. Paiva, F.F. Helbig, E. Borges, L.R. Rotulagem nutricional: você sabe o que está comendo? Braz. J. Food Technol., IV SSA, maio 2012, p. 84-88.